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The Other Side Of Marly

The Other Side Of Marly

Agora sem ensaios

Como o nosso conhecido tio Nico costumava dizer ''Primeiro filmamos, depois ensaimos''.

Acho incrível como essa simples frase consegue significar tanto... 

Vivemos absorvidos pela rotina, pelo ''tenho que fazer isto'', pelo ''ainda falta comprar aquilo'', pelo ''não tenho tempo para isso''... Vivemos os nossos dias mergulhados nas nossas preocupações, nos nossos afazeres e esquecemo-nos do resto que nos rodeia. E esquecemo-nos porque a nossa memória é curta ou se calhar apenas porque nos dá jeito que assim seja... Às vezes torna-se mais fácil que nos esqueçamos do resto, dá-nos mais jeito que tenhamos uma memória seletiva, que entremos em modo piloto automático. Dessa forma os nossos dias custam menos a passar pois as nossas preocupações baseiam-se única e exclusivamente na nossa rotina de afazeres. O resto, aquele resto que também devia ocupar os nossos dias, não passa disso mesmo, de um resto... E não passa disso porque dá jeito que assim seja. 

Agora o verdadeiro porquê... 

Quando a vida nos prega umas valentes partidas atrás de outras, quando começamos a ser obrigados a suprimir o bom que temos e o o nosso sangue começa a gelar, apenas vemos uma saída. Saída essa que nem sempre é a melhor mas que no momento aparenta ser a mais fácil... O desligar desse mundo. O mergulhar na tal rotina. O esquecer de certas coisas e pessoas necessárias à nossa vida... Só porque assim nos dá jeito. Porque não dá jeito chorar mais lágrimas nem berrar aos quatro ventos as nossas dores. Todos as temos, isso é inevitável. Muito provavelmente, se olharmos para o vizinho do lado, as dores dele serão bem superiores às nossas. Haverá sempre alguém pior... E na verdade, poucos ou nenhuns quererão saber das tuas dores. Cada um será obrigado a lidar com elas da forma que encontrar! Porque mais ninguém o fará por nós. 

 

E a mim deu-me jeito esquecer, deu-me jeito tornar a minha memória em algo bem seletivo...!

 

Mas houve um problema com o qual nunca pensei deparar-me, ou pelo menos não pensei que fosse para tão breve...

A minha memória tornou-se seletiva sim e o meu sangue também gelou. Mas o meu coração, não.

Torna-se difícil voltar a crer que as coisas mudam para melhor. Haverão sempre uns momentos melhores que outros, sim, mas isso não tornará as coisas melhores, apenas momentos melhores. Torna-se difícil voltar a acreditar que as nossas dores possam ser partilhadas. Na verdade, tudo o que é partilhado custa menos... Torna-se ainda mais difícil voltar a confiar. Porque ser desconfiada se tornou a melhor forma de sucesso para a minha vida. Mas ser desconfiada não é assim tão bom quanto possa parecer, pois tão depressa acreditamos piamente em algo como de repente já não temos assim tanta certeza em relação a isso. A nossa desconfiança natural entra em ação e põe tudo em causa. Obriga a que não demos mais de nós. Obriga a impor limites e barreiras que muitas vezes só servem para complicar o simples... 

Torna-se muito difícil voltar a confiar. Mas como nada é impossível nesta vida até se conseguir, quero acreditar que posso voltar a confiar. Que posso deixar a minha memória seletiva ganhar asas, que posso aquecer o meu sangue e deixá-lo fervilhar novamente pelas minhas veias. A isso se chama viver e não sobreviver... O resto é importante para que possamos viver. E dentro desse resto há ainda tanto por explorar... 

A confiança é ainda algo em crescimento. Como tudo o que cresce, tem fases. Umas boas, outras menos boas... Mas vai crescendo, finalmente!

Deixar a vida fluir como um rio... Esperar que tudo corra da melhor forma... Sem jogos, sem esquemas. Apenas esperar e aceitar o que vier. Haverá sempre algo bom a tirar de cada experiência.

Primeiro devemos filmar e só depois ensaiar. Primeiro devemos ser genuínos, sermos nós mesmo sem os tais jogos ou esquemas, sem ensaios, sem tudo o que nos impeça de crescer. A vida não é só feita de ensaios... Às vezes é necessário que algo nos apareça em mãos sem que estivessemos a contar com isso. Às vezes é necessário abrir o coração e esperar que tudo corra bem porque ''correr bem'' é a única forma possível que temos. 

 

Eu larguei os ensaios e voltei a ser eu mesma.