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The Other Side Of Marly

The Other Side Of Marly

Pó da terra. Pó da vida.

Ontem acordei tarde. Já havia passado meio-dia de trabalho e ainda eu estava na minha cama, a dormir. A minha mãe foi-me acordar, abriu a janela do meu quarto e disse-me para ir almoçar. Fiz a minha rotina diária, como em qualquer outro dia, e lá fui almoçar. Sentei-me à mesa. Olhei à minha volta e sorri. Não podia estar mais grata ao mundo pelo facto de ter uma família tão bonita. Sou mesmo uma sortuda e tantas vezes não o reconheço.

O meu pai chegou, sentou-se ao meu lado e sorriu também. Também ele sabia a sorte que tinha.

Como sempre, conversámos à cerca dos mais diversos assuntos. Felizmente, também tenho a sorte de ter uns pais incríveis. Não me bastava ter uma família bonita, ainda tinha que ter uma família culta, acolhedora, respeitadora... Todas essas qualidades que nem toda a gente tem o prazer de saber o que são. 

Depois de almoçarmos, retomámos à nossa vida. Cada um foi para o seu trabalho. 

Ontem foi diferente, não quis ficar no sofá em frente à televisão. Decidi que faria algo diferente.

Decidi acompanhar a minha mãe. 

A minha mãe é uma pessoa fantástica. Não o digo por ser minha, digo-o porque o é, de facto. Guerreira da vida, testemunha viva do que é sofrer para ter. A humildade é uma palavra que a descreve. Sempre foi trabalhadora. Sabe distinguir o bem do mal. Toma as mais difíceis decisões e enfrenta a luta como quem não tem medo das consequências. É a minha mãe. Aquela que me deu vida e que quase deu a vida por mim. É o meu anjo da guarda.

Acompanhei a minha mãe. 

A minha mãe tem um trabalho exigente. Trabalha com todas as faixas etárias. É fisioterapeuta. A dor faz parte do seu dia-a-dia. Quando a dor não é sua, cabe-lhe a ela aliviar a aflição dos outros. 

Acompanhei a minha mãe até ao lar onde ela presta serviços. Lá foi ela, com o sorriso mais lindo deste mundo, com uma alegria contagiante. Uma cosia é certa, quem não gosta da minha mãe, tem um gosto terrível, porque parece-me impossível alguém não gostar de um ser tão bondoso, que dedica a sua vida aos outros, ao sorriso dos outros.

Passado cerca de uma hora recebemos a notícia de que uma das idosas tinha falecido. 

A idosa tinha 97 anos. Viveu tudo o que havia para viver. Foi-lhe dada a permissão de viver até esta idade, coisa que nós,  muito provavelmente, não teremos a oportunidade.

Eu nunca tinha convivido com a senhora. Mas faleceu. E a dor dos filhos acaba por nos tocar a todos.

Fez-me pensar e reflectir sobre o assunto. Não seremos nós algo tão pequeno? Não viveremos nós uma vida de preocupações e desentendimentos? Ninguém quer assumir uma culpa, mas somos todos culpados. Culpados de querer uma vida assim. Culpados de não querer uma vida colorida, desprovida de mágoas. Mas de que é feita a nossa vida, no geral? Disso mesmo, de mágoas, aflições, dores, sentimentos de culpa, constrangimentos, ofensas... Tudo o que torna o Homem um ser pequeno.

Comecei a aperceber-me que também eu vivia uma dessas vidas. Mas porquê? Deixamo-nos engolir por tudo o que nos torna pequenos. Mas a realidade é só uma!! Somos filhos da terra. Nascemos da terra. E vamos morrer para a terra. No fundo, somos meramente pó. 

Tentei imaginar como seria se perdesse a minha família. Senti uma dor muito forte no peito, como se tivesse levado um valente murro. Doeu muito imaginar que algo idêntico fosse possível. Apercebi-me de que não aproveito aquilo que me foi concedido. Tenho tantas coisas que subestimo. Tenho tantas coisas às quais não dou importância... Apercebi-me de que essa culpa de que falei ainda há pouco, também era minha. Que era tão nova, mas que não sabia se chegaria ao dia de amanhã. Que se hoje tudo acabasse, o sentimento de culpa seria bem maior, por não ter dado o devido valor a variadas coisas, por não ter amado na quantidade certa, por não ter sido uma pessoa melhor, mais alegre, mais corajosa, mais e melhor! Apercebi-me de que precisava de mudar a minha atitude. 

Tenho uma família fantástica. Uma família que representa o amor que me foi dado. O amor de verdade, aquele que, aconteça o que acontecer, não desaparecerá. Aquele que tenho que tratar como se fosse uma planta. Rega-lo, dar-lhe carinho, tratar dele, vê-lo crescer e essencialmente vê-lo florir.

Porque somos meramente pó e porque iremos acabar todos da mesma forma, independentemente se em vida fomos ricos ou pobres, bonitos ou feios, bons ou maus. Importa o que fizemos e deixámos em vida. Porque a morte é um acontecimento certo, ao qual nenhum de nós escapará. Um acontecimento que não traz aviso prévio, nem deixa uma nota do telemóvel. Um acontecimento que não depende da nossa posição na sociedade mas que finaliza o que somos para a sociedade.

Eu quero ser esse pó que em vida marcou pela diferença, pelo bem. 

Porque o pó da morte, qualquer vivo sopra. Porque depois de morrermos, somos um nada. A diferença está no hoje, na vida que escolhemos ter e nos princípios que decidimos seguir.

Como Camões disse em ''Os Lusíadas'', somos um ''bicho da terra tão pequeno''.

Cabe-nos decidir que bicho escolhemos ser.